Sapateiro
Meu trabalho de etnografia visual (apresentação [bem] reduzida):
Sr. Silvério tem 68 anos de idade, largou a escola cedo, aos 11 anos, e com 12 começou a aprender o ofício de sapateiro com um vizinho. Uma relação de mestre e aprendiz. E aproximadamente aos 18 anos de idade parte para o Brasil, isto foi em 1959, indo morar na casa dos tios, no bairro do A... – casa, inclusive, onde mora até hoje.
Entre 1959 e 1960, seu irmão, José, chega de Portugal. Ele também aprendeu o ofício de sapateiro do mesmo modo que Silvério, no entanto seu mestre foi outro. Nesta mesma época passam a trabalhar como funcionários para um sapateiro que já estava instalado, haviam chegado com muito pouco dinheiro ao Brasil. Juntam uma quantia e, então, compram esta pequena oficina. Compraram-na como tudo – só o martelo não veio junto!
Hoje, essa profissão vem sumindo, desaparecendo paulatinamente. Talvez, essa pesquisa possa se assemelhar com a antropologia evolucionista que tinha como preocupação o registro de “sociedade primitivas” antes de seu desaparecimento. Não, essa não foi a minha preocupação, ao menos a princípio, mas sim o registro fotográfico das técnicas corporais.
A profissão do sapateiro está sumindo devido ao desenvolvimento econômico da sociedade. Acredito que durante esse tempo em que estive junto na oficina fotografando e questionando meu informante [sr. Silvério] tenha parado para refletir sobre sua profissão – uma interferência que eu, enquanto pesquisador, faço ao objeto de estudo. Sr. Silvério apontou algumas causas para o desaparecimento da profissão de sapateiro, tais como 1) o surgimento do tênis e consecutivamente a feitura de calçados com matérias cada vez mais descartáveis, de baixa qualidade e durabilidade; do 2) aparecimento do cartão de crédito facilitando a aquisição de calçado. Não existe mais aprendiz nas oficinas, portanto 3) a morte de um sapateiro é o fechamento da oficina. Apesar de não ter feito uma estatística ou encontrado, estimo que a faixa etária seja compreendida entre 40 à 70 anos ou mais, creio que no máximo deve haver alguns desviantes de 30 anos.


